
Em Allemande, Paul Galbraith propõe uma reflexão instigante sobre um dos grandes “sonhos” do violão clássico: Mozart. A célebre provocação de Julian Bream — “tudo o que precisamos agora é de uma sonata de Mozart!” — ecoa como ponto de partida para este projeto, que enfrenta uma das mais persistentes fantasias do repertório violonístico: a afinidade imaginada entre a transparência luminosa de Wolfgang Amadeus Mozart e a sofisticação tímbrica do violão.
Embora Mozart nunca tenha escrito para o instrumento, Galbraith encontra sua porta de entrada por meio do próprio diálogo histórico entre Mozart e Johann Sebastian Bach. A “Allemande” da Suíte em dó maior composta por Mozart em seu “ano Bach” (1782) revela surpreendentes afinidades com a Allemande da Primeira Suíte para alaúde de Bach, sugerindo ecos estilísticos e afinidades estruturais. Ao colocá-las lado a lado, o intérprete evidencia tanto as semelhanças quanto as diferenças: Mozart pode soar bachiano — mas permanece inconfundivelmente Mozart.
O programa inclui ainda a Sonata K.570, penúltima sonata para piano de Mozart, frequentemente considerada uma de suas obras-primas no gênero. Nela, contraponto, economia temática e profundidade expressiva convivem em tensão refinada. A influência de Joseph Haydn também se faz notar, especialmente na concepção monotemática do primeiro movimento.
Encerrando o álbum, Galbraith revisita duas suítes de Bach, incluindo a monumental BWV 995 — versão para alaúde associada à Quinta Suíte para violoncelo — reafirmando a extraordinária adaptabilidade da escrita bachiana ao universo do violão. Ao fazê-lo, o intérprete insere-se numa tradição histórica de transcrição que remonta ao próprio Bach, iluminando a profunda conexão entre alaúde, violoncelo e violão.
Allemande é, assim, mais do que um exercício de transcrição: é uma meditação sobre herança, afinidade e imaginação histórica. Com sua abordagem singular e refinamento sonoro característico, Paul Galbraith reafirma o violão como instrumento capaz de dialogar com o núcleo do classicismo vienense e com a essência do barroco europeu.
