Allegro Sinfonico

Nos seus primeiros registros fonográficos, a partir de 1984, Edson confirmava o modelo que caracterizava os seus recitais: a sonoridade impecável e a variedade no repertório. E assim se manteve. Neste segundo registro pela Guitarcoop, diversidade de formas e autores ainda é a norma, como ele mesmo faz questão de salientar.

Variedade, porém, não significa um mero acaso ou falta de critério. O fio sólido da tradição do violão clássico – peças originais e transcrições – tece a trama que, ao fundo, confere unidade e coesão ao repertório.

Dos nove autores presentes na gravação, cinco foram violonistas, didatas e compositores de obras originais para o instrumento. E três deles – Carulli, Aguado e Giuliani – pertencem àquela notável geração nascida na Itália e na Espanha em fins do século XVIII, período que hoje chamamos de Clássico. Eles, ao lado de Molino, Carcassi, Legnani e Fernando Sor, escreveram o que de melhor se produziu para o instrumento nessa época. A obra desses autores ainda hoje é parte substancial das gravações e recitais de violão.

Carulli é o mais antigo e o mais clássico de todos. Pelo número do opus, deduz- se que escreveu copiosamente, mas, de maneira geral, seus editores optaram por publicar apenas a parte mais acessível de sua obra, aquela com potencial de venda ao público consumidor. Os 6 Andantes op. 320, dedicados ao seu contemporâneo e colega Matteo Carcassi constituem exceção e servem como referência do seu talento criador. Talvez seja autor a ser reavaliado ainda, mas o que seria o melhor da sua obra pode estar perdido.

A obra autoral de Dionísio Aguado é quantitativamente menor que a de seus contemporâneos e apenas para violão solo, ao que tudo indica, mas não por isso menos valiosa. É célebre também pela sua obra didática, especialmente o Nuevo Método para Guitarra. A edição em espanhol, publicada em Madri em 1843, é tida como a melhor versão desse trabalho. Aguado, já no final da existência, reuniria nesse livro a experiência de toda uma vida dedicada ao violão. A terceira parte dessa obra, um série de 27 estudos, contém o Allegro brillante aqui gravado por Edson Lopes. É a última peça do ciclo e mereceu a seguinte observação do autor: “Este estudo oferece bastante dificuldade para ser executado com limpeza, exatidão e o colorido indicado pelos sinais de expressão”.

O italiano Giuliani é o expoente do período, comparável apenas ao espanhol Fernando Sor. A produção de ambos, já expressiva, ganhou notável projeção a partir dos anos 1990, quando ambos tiveram sua obra completa reimpressa em edição fac- similar, isenta de revisões e correções. O Op. 101 de Giuliani foi publicado por volta de 1819/20, em Viena. O autor retornaria a esse mesmo tema da ópera de Rossini na sua Rossiniana parte 2, op. 120.
O francês Napoleón Coste, ainda que amigo íntimo de vários da geração anterior, pertence musicalmente à fase seguinte, o Romantismo, berço também de outros nomes expressivos como Regondi, Zani Di Ferranti e Mertz. Neste momento a harmonia se torna o centro da atenção do fazer musical. Fugindo da polaridade tônica–dominante, diferentes zonas harmônicas sempre tensas entre si e o uso do cromatismo ampliam os limites do Tonalismo, tornando a música de Coste muito diversa a de Carulli, por exemplo. Seu Op. 23, Les soirées d’Auteuil é a última parte de um total de sete, num ciclo chamado Souvenirs, Sept Morceaux Episodiques, Op. 17-23, publicados a partir de 1850. Ainda que a concepção geral e harmônica do conjunto permita – ou mesmo sugira – a possibilidade de execução do ciclo como um todo, cada opus é perfeitamente adequado para ser tocado isoladamente.

E, por fim, o último compositor violonista do disco, o paraguaio Agustin Barrios, o nosso outsider latino- americano. Nascido no interior de um Paraguai pós- guerra, longe dos centros guitarrísticos da época, mas com talento e vigor suficientes para fundir a tradição clássico–romântica com suas raízes latino– americanas e produzir uma obra rica e original. Hoje reconhecida, publicada e gravada em todo o mundo. Na média, sua obra exige muito do executante, como é o caso deste Allegro sinfônico. Sua obra integral ainda é trabalho em andamento, mas conhecemos hoje cerca de 120 peças.
As demais obras, dos quatro autores não violonistas, aparecem neste programa por meio de transcrições, uma prática importante na evolução do instrumento. Apesar de antiga – Carulli, Giuliani e Coste fizeram, para nos atermos só ao universo do violão – Francisco Tárrega (1852–1909), fundador do violão moderno, ampliou e aperfeiçoou a prática, que via como uma forma de valorizar e elevar o nível do instrumento naquele momento. Depois, Segovia e muitos outros deram continuidade à prática de transcrições e até hoje, antigas, novas ou em releituras, fazem parte do universo do violão clássico. Algumas alcançaram até o prestígio de serem mais ouvidas ou mesmo conhecidas ao violão do que na sua forma original.

NAPOLÉON COSTE (1805-1883)
{01} Les soirées d’Auteuil, Op. 23 7’00
Serenade Scherzo

LUDWIG VAN BEETHOVEN (1770-1827)
{02} Adagio Cantabile (da Sonata para Piano No. 8, Op. 13 “Patética”) (**) 5’46

DIONISIO AGUADO (1784-1849)
{03} Allegro Brillante No. 27, Op. 6 do Nouvelle Methode de Guitare 2’29

TOMASO ALBINONI (1671-1750)
{04} Adagio (*) 6’32 AGUSTIN BARRIOS (1885-1944)
{05} Allegro Sinfonico 2’23

FERDINANDO CARULLI (1770-1841) 6 Andantes, Op. 320
{06} Andante affettuoso com poco moto (Sol maior) 2’23
{07} Andante com moto (Mi maior) 3’53
{08} Andante molto sostenuto (Lá maior) 4’00
{09} Andante giusto (Fá maior) 2’35
{10}Andante legiero e grazioso (Mi bemol maior) 2’31
{11} Andante risoluto (Ré maior) 2’23

JOHANN SEBASTIAN BACH (1685-1750)
{12} Prelúdio No. 9 – O Cravo bem temperado, Vol. 1, BWV 854 (*) 1’45
{13} Prelúdio No. 4 – 6 Kleine Präludien, BWV 936 (*) 3’02

JOSEPH HAYDN (1732-1809)
{14} Minueto (***) 3’42
Quarteto de Cordas, Op. 76, No. 1, Hob.III:75

MAURO GIULIANI (1781-1829)
{15} Variazioni, Op. 101 7’26
sulla Cavatina favorita “Deh! Calma, o ciel” sulla Opera “Otello”

(*) Transcrição de Edson Lopes | (**) Transcrição de Francisco Tárrega | (***) Transcrição de Andrés Segovia

Mais sobre Edson Lopes

Créditos – Allegro Sinfonico

Idealização: GuitarCoop
Gravado em: Sala Boa Vista, São Paulo, Brazil
Datas: Novembro e Decembro de 2017
Técnico de Som: Ricardo Marui
Produção Musical: Guilherme Sparrapan
Edição: Guilherme Sparrapan/Ricardo Marui
Mixagem: Ricardo Marui
Masterização: Ricardo Marui – Pinus Studio
Textos: Ivan Paschoito
Tradução: David Molina
Design Gráfico/Web: Eduardo Sardinha
Editoração Eletrônica: Patricia Millan
Violão: Clodoaldo Pirajá (Abeto – 2017), Brasil, Antonio Marin Montero (Cedro – 2017), Espanha
Cordas: D’Addario Strings
Microfones: Royer SF-24, DPA 2006

Sistema de Gravação: Metric Halo LIO-8
Pré-amplificador: Millenia HV-3D
Cabos: Van den Hull D-102

Agradecimentos: Á Deus pelo talento que ele me deu e pelas maravilhosas oportunidades,
minha esposa Ieda pelo incentivo, à GuitarCoop pela competência e pela oportunidade.

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