Canarios

Cadenza from “Fantasia para un Gentilhombre”

Compositor: Joaquin Rodrigo (Gaspar Sanz)

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Produzido por GuitarCoop
Performance: Aniello Desiderio
Imagens e Edição: Eduardo Sardinha
Engenheiro de Som: Ricardo Marui
Produção Musical: Henrique Caldas
Edição e Mixagem: Ricardo Marui
Violão: Alessandro Marseglia
Locação: Estúdio Boa Vista (São Paulo/BR)
Data: 15 de Maio de 2019

Chaconne – Aniello Desiderio plays Baroque Music

O Barroco como pano de fundo

Por Sidney Molina

Antes de atacar a seção em ré maior da “Chaconne” de Bach (1685-1750), Aniello Desiderio faz uma pausa um pouco maior do que o habitual: é como se o ouvinte tivesse chance de recomeçar, de repensar sua escuta em meio ao emaranhado das variações; mais adiante, ao retornar para a tonalidade menor, ele faz o mesmo: parece que a eloquência do silêncio final da obra é preparada por esses momentos, ganhando novas reverberações e sentidos.

Para além do embate entre a recriação de obras antigas e o esforço para preservar em seus próprios termos os estilos do século 18, artistas atuantes nestas primeiras décadas de século 21 têm deslocado a questão para o contexto, para as relações que as obras de um programa podem estabelecer entre si. Mais do que a escolha linear do repertório, músicos como Desiderio constroem diálogos por meio das próprias decisões interpretativas: assim, um som mais opaco ou luminoso, as opções de andamentos arrastados ou nervosos e a angulação suave ou penetrante das frases sonoras podem ser fatores mais decisivos do que conceitos concebidos de fora para dentro ou de uma filiação rígida a escolas técnico-performáticas.

O movimento final da Partita n.2 para violino solo tornou-se, com o tempo, uma obra autônoma, inspiradora de transcrições e arranjos famosos para diferentes formações instrumentais, entre os quais o de Ferruccio Busoni (1866-1924) para piano e o de Andres Segovia (1893-1987) para violão. Na segunda metade do século 20, por outro lado, quando a pesquisa histórica ganhou relevância, a preferência passou a ser pela leitura da “Chaconne” de Bach diretamente da parte de violino, com mínimas adições. A geração de Aniello Desiderio está além dessas dicotomias.

Nada poderia contrastar mais com o estrito e consequente discurso bachiano do que a escrita aberta e improvisatória de danças extraídas da Instrucción de Música sobre la Guitarra Española de Gaspar Sanz (1640-1710), originais para guitarra barroca de 5 ordens (5 cordas duplas). A opção de Desiderio pelo arranjo do violonista espanhol Narciso Yepes (1927-97) aceita incorporar também elementos modernos introduzidos por Joaquín Rodrigo (1901-99) em sua Fantasía para um gentilhombre para violão e orquestra (1954), dedicada a Segovia, talvez a mais bem-sucedida composição realizada a partir das tablaturas de Sanz.

Napolitano como Desiderio, Domenico Scarlatti (1685-1757) radicou-se na Península Ibérica a partir da década de 1720. Suas mais de 500 sonatas para teclado em movimento único e forma binária constituem um legado de virtuosismo, criatividade e exploração não convencional de elementos harmônicos e rítmicos.

Utilizadas frequentemente por pianistas como abertura ou momento de transição em recitais ou álbuns, algumas dessas sonatas tiveram uso similar ao serem transcritas para violão por Segovia e seus descendentes. Com o advento de edições críticas e gravações realizadas por especialistas, começaram também a surgir álbuns totalmente dedicados a Scarlatti. No mundo do violão cabe mencionar o pioneiro LP lançado em 1973 pelo solista brasileiro Carlos Barbosa-Lima.

O set interpretado por Desiderio inclui obras meditativas como as K.32, K.34 e K.213, a presença de peças com repetições rítmicas obsessivas e espaços para ornamentações brilhantes, como as K.74 e K.149, e a beleza barroca solene de itens como as K.144 e K.408.

A hesitação no tempo, a ênfase no contraponto, as repetições da figura ré#-mi-fá#-mi-ré#-mi em diversas aparições e transposições na interpretação da K.466 (original em fá menor, aqui transcrita em mi menor) chamam atenção para o deslocamento mencionado acima: sem deixar de ser música barroca transcrita para violão – com tudo o que isso implica nesta segunda década do século 21 –, o que Aniello Desiderio procura fazer passa adiante, transcende esses limites.

Biografia – Aniello Desiderio

Em 1992, Aniello Desiderio formou-se com destaque no Conservatório de Música de Alessandria.

Tocou em público pela primeira vez aos oito anos e demonstrou tanto talento, que críticos musicais começaram a se referir a ele como “criança prodígio”, “wunderkind”, “gênio”, “Orfeu do violão”, “violonista do século” e “il Fenomeno”.

Venceu 18 primeiros lugares em competições nacionais e internacionais, incluindo o Primeiro Prêmio e Prêmio Especial para melhor intérprete de música sul-americana no Concurso Internacional de Havana, Cuba (1988); o Prêmio “Napolitano do Ano” (1988); Primeiro Prêmio e Prêmio Especial para melhor interpretação de Tárrega no Concurso Interacional Francisco Tárrega em Benicasim, Espanha (1992); e o Primeiro Prêmio no Concurso Internacional “Guerrero” em Madrid, Espanha (1995).

Aniello tocou como solista com orquestras nas Américas do Norte e Sul, Europa, Ásia, África e regularmente se apresenta nos teatros mais importantes do mundo como Carnegie Hall, Palau de La Musica, Munich Philarmonie, Alte Opera, Tonhalle, Teatro delle Palme, Radio France, Die Gloke, Instanbul Philarmonie, Berlin Philarmonie e Opera House Wien.

Músicas

J. S. BACH
1) Chaconne from Partita No. 2 in D Minor, BWV 1004

Domenico SCARLATTI
2) Sonata K 213
3) Sonata K 74
4) Sonata K 408
5) Sonata K 144
6) Sonata K 32
7) Sonata K 149
8) Sonata K 34
9) Sonata K 466

Gaspar SANZ – Suite Espanola
10) Espanoletas
11) Gallarda y Villano
12) Danza de Las Hachas
13) Rujero y Paradetas
14) Zarabanda al Ayre Espanol
15) Passacalle de la Cavalleria de Napoles
16) Folias 1’46
17) La Minona de Cataluna
18) Canarios “including Cadenza from
“Fantasia para un Gentilhombre” by J. Rodrigo

Ficha Técnica

Idealização/Created by: GuitarCoop
Gravado em/Recorded at: Sala Boa Vista, São Paulo, Brazil
Data/Date: May 2019
Engenharia de Som/Sound Engineering: Ricardo Marui
Produção Musical/Produced by: Henrique Caldas
Edição/Digital Editing: Henrique Caldas
Mixagem/Mixing: Ricardo Marui
Masterização/Mastering: Ricardo Marui – Pinus Studio
Textos/Booklet notes: Sidney Molina
Tradução: David Molina
Design Gráfico/ Graphic Design: Eduardo Sardinha
Fotos/Photos: Eduardo Sardinha
Editoração Eletrônica/Publishing: Patricia Millan
Violão / Guitar: Alessandro Marseglia from Naples, Cedar Double Top
Cordas/Strings: D’Addario  HBH-3T and  SDH-3B
Microfones/Microphones: Royer SF-24, DPA 2006
Sistema de Gravação/Recording System: Metric Halo LIO-8
Pré-amplificador/Preamplifier: Millenia HV-3D
Cabos/Cables: Van den Hull D-102 

Agradecimentos/Acknowledgments:

Special Thanks to Marcelo Kayath and the incredible staff of GuitarCoop.
I had great time in São Paolo during the recording session, Fabio Zanon and Alberto Mesirca for the wonderful transcription of Sonatas K 144 and K 466